Ok, esse é um post difícil. Há muito tempo eu prometi pra mim mesma nunca mais comprar uma briga ou defender um lado da moeda a não ser que fosse em relação à minha vida pessoal e, óbvio, longe da internet. Mas dessa vez não deu pra segurar (ok, também tinha prometido não me justificar muito e tal, enfim…).
O assunto da última semana foi a retirada preventiva das mamas que Angelina Jolie fez. Entre alguns textos muito bons que vi, alguns me deram azia, como o do jornalista André Forastieri que a chamou de heroína cretina. Amigo, cretino é você e vou explicar porquê.
Sem entrar nos méritos do trauma de uma cirurgia invasiva, da “perda” da feminilidade e da autonomia do corpo, eu quero falar sobre outra coisa: o medo.
Eu nasci toda errada. Quando vim ao mundo, mamãe tinha 42 anos e era obesa. Meu pai tinha 49. Eu passei a vida ouvindo eles falando que “não estariam sempre ali”. Vocês tem noção do que é saber que seu pai ou sua mãe são pessoas idosas que podem morrer a qualquer momento e não há NADA que você possa fazer para impedir isso porque é a natureza e o ciclo natural da vida? Tive muitos problemas na infância/adolescência por causa disso. Pois bem, quando eu tinha 19 anos minha mãe – que já era obesa e tinha problemas de pressão alta e diabetes há anos – foi diagnosticada com um problema nos rins, que estavam parando, precisaria de hemodiálise. Sabe o que aconteceu? Minha mãe não resistiu e faleceu aos 62 anos. Nova, para a expectativa de vida das mulheres brasileiras, que é de cerca de 77 anos. Ninguém sabe o quanto isso foi traumatizante pra mim. Primeiro entrei na neura de fazer exames de diabetes e tirar a pressão quase diariamente, porque me deu um cagaço (desculpem a expressão) de ter o mesmo problema que ela. Fui em alguns médicos na época e todos disseram que a predisposição existe, sim, e que eu preciso ter uma alimentação saudável, praticar exercícios e sempre monitorar minha saúde. EU TINHA 19 ANOS. EU MORRI DE MEDO.
Daí tem a Angelina Jolie. A mãe dela morreu aos 56 anos de um câncer de mama (correção da Fernanda: foi um câncer nos ovários). Em 2007, mesmo ano em que perdi minha mãe para a pressão alta/diabetes/insuficiência renal. E, convenhamos, Angelina tinha 31 quando isso aconteceu, eu tinha 19, mas vocês acham mesmo que há alguma diferença na dor? Bingo: NÃO HÁ. Perder uma pessoa que você ama incondicionalmente como sua mãe não é fácil. E saber que você pode ter o mesmo problema que ela é absolutamente assustador. Angelina Jolie tem seis filhos, três biológicos e três adotados. Ela sabe a dor de perder a mãe cedo, vocês acham mesmo que olhando SEIS CRIANÇAS que ela ama incondicionalmente, ela daria a menor chance de perder o crescimento dos filhos e deixar eles sem uma mãe tão cedo, com uma chance TÃO GRANDE de ter câncer? Desculpa mas eu duvido. Eu não faria isso. Eu não faria meus filhos sofrerem sabendo que, a qualquer momento, eu poderia ser diagnosticada com um câncer – ou mesmo com a diabetes e pressão alta.
Eu não sou mãe, não faço ideia de como seja. Mas eu perdi uma mãe e a sensação eu sei bem como é. Por isso respeito, apoio e defendo a decisão da Angelina Jolie. Porque ela não fez isso só por ela, só pelo “medo do câncer”. Ela fez isso para que seis crianças não perdessem uma mãe, porque, não duvido, na visão dela era 87% disso acontecer. E você não vai dar chance de dar aos seus filhos a dor que você passou, correto? Porque eu não daria. Porque se eu precisasse tirar peito, útero, um braço, eu tiraria sem pensar muito, só pra poder passar mais tempo com meus filhos, para que eles me perdessem para a natureza, pro ciclo natural da vida, e não para uma doença devastadora como o câncer. Então, antes de chamar Angelina Jolie de cretina, de falar que ela fez isso para aparecer e se promover, seria bacana se as pessoas pensassem um pouco mais em todos os fatores que a levaram a tomar essa decisão. Não são só os 87% de chance de ter câncer, são os 87% de chance de não ver seus filhos indo pra faculdade, são os 87% de chance de morrer sem conhecer seus netos, são 87% de chance de ter uma depressão ou outro problema de cunho psicológico por puro medo, são 87% de chance de morrer cedo, são 87% de chance de perder muita coisa. Você daria esses 87% de chance? Eu não. Nem Angelina Jolie.





